Dinheiro não é tudo? Para jovens profissionais, prioridade é outra

Publicado em Atualizado em: 26/07/2019

Mais do que um bom salário, a Geração Z deseja fazer o que gosta, ser reconhecida e conseguir equilibrar trabalho e vida pessoal

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Ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade a ter uma vida melhor: esse foi o propósito de carreira traçado pela assistente social Mariana Coura. Desde cedo, ela e sua irmã mais nova acompanhavam a mãe em trabalhos voluntários e visitas a orfanatos. A influência passou de um simples gesto de solidariedade e se transformou em escolha profissional: aos 18 anos, Mariana se matriculou no curso de serviço social. Hoje, aos 23 anos e recém-formada, ela é um exemplo real da Geração Z – que reúne os nascidos entre 1995 e 2010. Isso porque, para os jovens dessa faixa etária, no mercado de trabalho, o dinheiro não é tudo; e há outras coisas que valem mais do que o retorno financeiro. 

É o que mostram as informações levantadas em uma pesquisa conduzida pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) divulgada nesta segunda-feira (22). O estudo considerou jovens com idades entre 18 e 24 anos, e o resultado chamou a atenção. Para esse público, trabalhar com o que gosta (42%), equilibrar trabalho e vida pessoal (39%) e ser reconhecido pelo que faz (32%) são fatores mais importantes do que ter um bom salário (31%). 

“Na época de escolher a carreira, busquei entender como o mercado funcionava e observei que a média salarial da área não era alta”, conta Mariana. “Mesmo assim, me identifiquei com a profissão de assistente social, e isso foi o que determinou a minha decisão”, afirma. 

Em comunicado enviado à imprensa, José César da Costa, presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), observa que a ambição para uma carreira que reúna as realizações pessoais é mais buscada pelos jovens que o sonho da casa própria ou um casamento, por exemplo. 

“Se para as gerações anteriores formar família e desenvolver carreira duradoura e estável em uma única empresa era primordial, a Geração Z está disposta a explorar mais as possibilidades profissionais e adiar planos de casamento e filhos”, discorre o presidente em nota. 

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Novo comportamento no mercado de trabalho

Se antes oferecer um bom salário bastava para atrair e reter profissionais mais novos, hoje, as empresas precisam fazer mais para cativar os talentos da Geração Z. 

Andrea Deis, especialista em gestão empresarial e de carreira, acredita que as novas preferências da juventude podem estar relacionadas ao alto desemprego para essa faixa etária – cerca de 27% da população com idade de 18 a 24 anos não têm um emprego, enquanto a taxa média nacional gira em torno de 13% – e enfatiza a necessidade de adaptação para se dar bem no mercado. 

“No fundo, o desejo de trabalhar por um propósito e ter uma vida pessoal não é uma particularidade da Geração Z. É o que todos nós queremos”, afirma Andrea. “Por outro lado, pagar as contas, assumir responsabilidades e estar disposto a se adaptar às normas e cultura de uma empresa também é muito importante para conseguir um emprego, e hoje muitos jovens que já não querem se submeter a isso”, comenta a especialista. 

Inovar para conquistar

Já que oferecer um salário alto não é suficiente para fazer os olhos dos jovens brilharem, as empresas precisam desenvolver novas formas de conquistar esses profissionais. De olho nessa necessidade, algumas organizações têm apostado na oferta de horários flexíveis, ambientes descontraídos e espaços interativos. 

Além disso, nesse cenário, muitas empresas estão investindo no planejamento e reestruturação de sua cultura organizacional. Isso porque, para muitos jovens, trabalhar em um lugar que defenda causas com os quais eles se identificam – como ações  voltadas à preservação do meio ambiente, inclusão de pessoas com deficiência e igualdade racial, por exemplo – tem mais valor do que ganhar dinheiro. 

“Para contornar a rigidez, as organizações têm desenvolvido ações que integram profissionais de diferentes gerações e mostram aos colaboradores como o trabalho é importante para que eles realizem os seus sonhos. Sem dúvida, isso ajuda a trazer mais propósito às atividades que cada um exerce”, comenta Andrea.

Quando o assunto é gestão empresarial, a Geração Z também valoriza o modelo horizontal. Esse formato permite que os funcionários levem ideias diretamente aos cargos mais altos da hierarquia e dá mais importância aos resultados do que ao cumprimento de horários de entrada e saída, por exemplo.

Dinheiro não é tudo, mas sem planejamento, pode fazer falta 

Realmente, para muitos da Geração Z, dinheiro não é tudo. Mas, atenção: se não houver planejamento e uma boa noção de educação financeira, no fim do mês as contas podem não fechar e a inadimplência poderá bater na porta. 

Tal realidade já tem sido observada no Brasil. No semestre anterior, a CNDL e o SPC Brasil mapearam a situação financeira dos brasileiros entre 18 e 24 anos, que dão os primeiros passos profissionais. O estudo revelou que 4 entre 10 jovens estão ou já estiveram com o nome sujo, e o descontrole das finanças é uma das principais causas do endividamento excessivo. 

Ainda segundo o SPC, quase metade dos jovens não tem o controle das finanças, e a principal justificativa é o fato de não saber fazer (19%). Em seguida, vem a preguiça (18%) e falta de hábito ou disciplina (18%). 

A situação da assistente social Mariana Coura não é diferente. A falta de planejamento financeiro fez com que ela gastasse mais do que ganhava como estagiária e colocou o seu nome na lista de negativados.  

Mariana conta que por muitas vezes tentou organizar as contas, mas ainda não teve sucesso. “Eu sinto a necessidade de ter um controle. Já usei até agenda para registrar os gastos mas, no meio do caminho, sempre acabo me perdendo e desisto”, ela diz. 

Sua história, parecida com a de milhões de jovens, também chama a atenção para a necessidade de educação financeira na infância, ainda pouco praticada no Brasil. 

“Eu acho que se eu tivesse aprendido mais sobre dinheiro em casa ou até na escola, a minha vida seria diferente”, afirma Mariana. “A minha família também nunca soube controlar o dinheiro, e hoje, mesmo tentando me policiar, sempre acabo gastando mais do que deveria. Agora, adulta, é muito mais difícil romper com os maus hábitos financeiros”, declara. 

Geração Z: como o desequilíbrio financeiro afeta a sua vida profissional?  

Embora muitas corporações estejam se esforçando para atender às necessidades de mudança dos profissionais mais jovens, poucas empresas têm olhado para a educação financeira, que é uma questão muito relevante para essa geração. 

Como consultora, Andrea orienta muitos empresários sobre a necessidade de falar de dinheiro com os funcionários – especialmente os mais jovens – e, por meio de campanhas no ambiente de trabalho, ensiná-los a administrar melhor o orçamento. 

As possibilidades são muitas: com palestras, workshops, cartilhas e diversos outros recursos, é possível levar conteúdo de qualidade para os colaboradores. No entanto, a ideia ainda é pouco abraçada pelos gestores. 

“Ao invés de priorizar a promoção de educação financeira no trabalho, o que eu tenho visto são empresas que se recusam a contratar jovens endividados, o que reduz bastante as chances de recolocação profissional”, lamenta a especialista.

Ela explica que, normalmente, o endividamento gera preocupação constante e prejudica o estado de atenção do indivíduo. Como consequência, ele tem a sua produtividade afetada e não gera resultados tão satisfatórios quanto poderia. 

“As empresas poderiam desempenhar um papel muito importante nesse sentido, já que os brasileiros normalmente não têm educação financeira por influência da família ou no ambiente escolar”, defende Andrea. “Mas, na realidade, elas ainda não estão preparadas para isso e, principalmente, não querem lidar com o problema”, completa. 

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Postado por Flávia Marques

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