Inadimplência: melhora da economia pode ajudar endividados

Publicado em Atualizado em: 12/04/2019

Economista da Tendências Consultoria aponta o consumo das famílias e retomada de investimentos como pontos fundamentais para a recuperação econômica. Entenda como o processo ajudará os inadimplentes

O ano de 2018 caminha para ser o ponto de virada – e retomada – no mercado de trabalho. Em novembro, o Brasil gerou 58 664 vagas formais de trabalho – as que têm carteira assinada -, o melhor resultado para o mês desde 2010, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. O resultado chega como um alento à economia: se as projeções esperadas se concretizarem, o Brasil encerrará o ano com mais de 500 000 empregos de carteira assinada criados. Com sinais claros apontando para o caminho do crescimento, a expectativa para 2019 é a de que a inadimplência, principalmente a de contas básicas, uma das grandes responsáveis por deixar o cidadão negativado, possa diminuir.

“As pessoas claramente optaram por pagar os débitos com o banco e empurraram as outras linhas [de contas] com a barriga. Então, esse tipo de inadimplência ainda precisa mostrar redução”, explica Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e política da Tendências Consultoria. “Com a melhora esperada para a renda [das pessoas] e do mercado de trabalho, esses débitos serão quitados.”

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Inadimplência no Brasil: um país de endividados

Ainda que a economia dê sinais claros de recuperação, o número de pessoas negativadas por estarem endividadas ainda é alto. É o que mostra a análise feita pelo SPC Brasil em novembro. De acordo com o levantamento, o país encerrou o mês com aproximadamente 63,1 milhões de brasileiros com o CPF negativado por conta de atrasos no pagamento de contas.

Ainda segundo a análise, os principais motivadores do alto volume de inadimplência no país são as dívidas bancárias – que incluem cheque especial, cartão de crédito, financiamento e empréstimos. Na sequência, surgem os atrasos em boletos como serviços de internet, TV por assinatura e telefonia, e, por fim, contas básicas para o funcionamento da residência, como água e luz.

Hora da retomada

As expectativas e projeções para o próximo ano, porém, são positivas nesse aspecto. A tendência para 2019 é a de que a economia continue gerando empregos formais – e que o volume aumente, inclusive. Se mantiver esse ritmo, a Tendências Consultoria projeta um crescimento de 2% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2019. Em relação ao quadro inflacionário, a expectativa é a de que o IPCA fique um pouco abaixo da meta, em 4,1%. “Também prevemos um ajuste gradual de de juros a partir de setembro de 2019, deixando a Selic em algo como 7,75%”, afirma Alessandra.

Todas essas projeções dão sinais de que com a volta da renda e do emprego formal, as pessoas poderão voltar a investir em outras áreas, seja em consumo, realização de projetos antigos/sonhos e em investimentos.

Confira, a seguir, trechos da entrevista que a economista e diretora da Tendências Consultoria concedeu à Revista Digital Creditas:

Alguns economistas aumentaram a previsão de crescimento do PIB em 2019. Qual a projeção da Tendências Consultoria e como vocês estão analisando o panorama econômico para o ano que vem?

Esperamos um cenário melhor para 2019. Temos expectativa que a economia ganhe um pouco mais de tração. Projetamos um crescimento de 2% no PIB, dentro de um ambiente de quadro inflacionário favorável, com IPCA em 4,1%, ligeiramente abaixo da meta. Também esperamos um ajuste gradual de juros a partir de setembro de 2019, deixando a Selic em 7,75%. Ou seja, um cenário econômico melhor e mais favorável. Claro que, para isso, é preciso que algumas premissas relevantes aconteçam, como o andamento da agenda de reformas, principalmente na área fiscal.

– O que mais vai estimular o crescimento para o ano que vem?

Consumo e investimento serão os principais drivers para aquecer a economia. Em 2018, o consumo das famílias pode crescer quase 2%. Para ano que vem, a expectativa é que cresça 2.5%. Já os investimentos, crescerão 4,8% em 2018 e 5,5% em 2019. Como o peso do consumo das famílias é muito relevante – 63% da composição do PIB vem do consumo – os 2,5% de crescimento tem um peso muito maior do que o número em si. Dos 2% de avanço esperado no PIB, algo como 1,6% virá do consumo das famílias.

– A retomada do consumo será de maneira natural, como impacto da melhora econômica como um todo, ou haverá algum incentivo para que as famílias voltem a consumir?

O consumo das famílias virá justamente pelo processo natural de renda, decorrente da melhora da economia e dos fundamentos. Esse bom desempenho trará efeitos para o consumo. A economia brasileira não tem condições de incentivar consumo. Então, a melhora dos fundamentos econômicos, com juros mais baixos, retomada do emprego e da renda, vai propiciar um crescimento natural do consumo.

– Nesse sentido, o desemprego continuará reduzindo?

Sim. Já vemos sinais de melhora no mercado de trabalho. Quando olhamos outras métricas, como a de geração de empregos, a gente observa que a economia voltou a gerar empregos. Mais informal que formal, mas há melhora em curso. Então, para o ano que vem, a taxa de desemprego vai cair, mesmo que devagar. A projeção é que fique na média de 11,7% para 2019. [em 2018, ficou em torno de 12,4%]

– Em novembro a inadimplência voltou a crescer, segundo levantamento do SPC. Quais são as expectativas para os próximos meses, levando em consideração que a tendência é que a economia melhore?

As pessoas de modo geral têm dificuldade em lidar com o crédito, não conseguem se organizar no ponto de vista financeiro quando toma um crédito. Olhando para essas estatísticas, a inadimplência em outras linhas fora a de banco continua alta. As pessoas claramente optaram por pagar o banco e empurraram as outras linhas [como contas básicas de internet, varejo e derivados] com a barriga. Esse tipo de inadimplência ainda precisa mostrar a redução. Mas, com a melhora esperada para a renda e para o mercado de trabalho, a tendência é que esses débitos sejam quitados.

– Há um movimento do Banco Central em reduzir as taxas de juros. Isso ajudaria a diminuir o quadro de inadimplência?

O Banco Central possui uma agenda chamada BC +, que tem todo um esforço para reduzir o juro final ao tomador, tanto pessoa física, como jurídica. Não forçando redução de juros como foi feito em 2011 e 2012, mas atacando as questões estruturais – coisas que encarecem os serviços. Há, também, os impactos positivos de maior concorrência no mercado com as fintechs, que contribui para um ambiente de maior competição, forçando instituições a reverem processos. Tudo isso pode, sim, ajudar.

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Postado por Paula Bezerra

Editora da Revista Digital Creditas, jornalista de coração e alma. Escreve sobre finanças, inovação, economia, cultura e o que mais der na telha.

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