Dia 1º de Maio reafirma a importância da diversidade no trabalho

Publicado em Atualizado em: 10/05/2019

Data que celebra o dia do trabalhador endossa a relevância de um mercado mais diverso. Mais que uma pauta social, a diversidade traz impactos diretos nos negócios das empresas – além de engajar os colaboradores

diversidade no mercado de trabalho

“Hoje, um dos grandes motivos de estar trabalhando onde estou, é por eu me sentir acolhido, uma sensação que eu não encontraria em um lugar homofóbico. E isso é um fator prioritário na minha vida profissional.” O trecho ao lado foi dito pelo advogado José Humberto Deveza, de 27 anos. Há dois anos e meio ele atua em um grande escritório de advocacia do país, onde entrou como estagiário e, atualmente, exerce o título de advogado. Desde sua entrada no escritório, Deveza conta que a orientação sexual nunca foi um entrave ou motivo de preconceito e discriminação – seja por parte dos colegas ou da liderança. Ao longo do processo de efetivação, o ambiente inclusivo e a promoção da diversidade no trabalho foi fundamental para que ele se engajasse ainda mais e pudesse focar apenas em suas atribuições profissionais e carreira (e não ter que lidar com situações de homofobia, por exemplo). Com o passar do tempo, Deveza, inclusive, entrou para o comitê de diversidade da companhia.

Seu exemplo corrobora com inúmeros estudos globais que endossam o tema: diversidade no trabalho não é só uma questão de direitos humanos, social e, muito menos, modismo: é fundamental para a sobrevivência e crescimento das empresas e do mercado corporativo como um todo.

O estudo “Delivering through Diversity” realizado pela consultoria McKinsey and Co. sobre diversidade evidencia que empresas com times de executivos com maior variedade de perfis são mais lucrativas. O levantamento levou em consideração 12 países e avaliou a performance de ao menos mil empresas globais.

Um dos resultados da análise comprovou que companhias que na amostra apresentaram mais diversidade de gênero têm 21% mais chances de apresentar resultados acima da média do mercado, quando comparadas com as empresas que não investem nisso.

Já em relação à diversidade cultural e étnica, a disparidade é ainda maior: companhias que trabalham a diversidade tem 33% de chances de se saírem melhores que as que não dedicam tempo ao tema. 

E quando a pauta é diversidade LGBTQ+, os números também são favoráveis. Um estudo do banco de investimentos Credit Suisse com 270 empresas da América do Norte, Europa e Austrália, mostra que empresas que exercem políticas globais para o público LGBTQ+ registraram um crescimento no lucro 6,5% maior, nos últimos seis anos, quando comparado ao de concorrentes que desprezam a diversidade.

O aumento da produtividade em razão dos diferentes estilos de gestão e a complementaridade de ideias, estão entre alguns dos motivos para que os investimentos em diversidade sejam tão positivos. Além disso, um ambiente diverso aprimora o foco da empresa no cliente e, por consequência, a satisfação dos funcionários – por verem melhores resultados. 

“Hoje em dia, as empresas passaram a enxergar a necessidade de se aproximar da nova geração, afinal, o padrão do cliente mudou”, diz Reinaldo Bulgarelli, sócio-diretor da Txai Consultoria e Educação, especializada na valorização da diversidade. “As marcas também têm de estar de acordo com os interesses e o jeito de ser da nova geração, senão elas ficarão para trás. E isso quer dizer: trabalhar com diversidade.”

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Diversidade no trabalho: por que importa?

Se há dois séculos a luta dos trabalhadores de Chicago  – que resultou a comemoração mundial de 1º de maio – era reivindicar condições melhores e mais justas no mercado de trabalho, atualmente, a batalha é por um ambiente mais inclusivo, diverso e igualitário. E, grande parte dessa mudança de mentalidade é decorrência dos avanços sociais, educacionais e tecnológicos ao longo desses anos.

Toda essa conjuntura se refletiu nos millennials (pessoas nascidas entre os anos de 1980 a meados de 1990), a chamada geração “do propósito”, cujo poder de compra apenas nos Estados Unidos chegou a US$ 200 bilhões em 2017; e na geração Z, os pós-millennials – nascidos entre 1995 a 2010.  

E, no caso do mercado de trabalho, mais que propósito, as novas gerações querem ver e sentir a mudança de comportamento e do pensamento restrito. Exemplo disso é a figurinista Dandarah Silveira, de 30 anos. Formada em moda e com uma vasta experiência no ramo, há sete anos ela atua em uma grande empresa de comunicação que investe e demonstra se importar com a diversidade. Para ela, isso faz muita diferença.

“Nos últimos três anos eu parei de ver pessoas negras apenas em cargos considerados de ‘base da pirâmide’. Agora, eles também estão em produções, ocupando cargos maiores”, diz a figurinista. “Mais que isso, houve um aumento de jovens gays, negros e deficientes na empresa em que trabalho. Eu consegui ver e sentir as mudanças.”

Essa percepção e anseio por inclusão das novas gerações têm um porquê: uma análise da consultoria Boston Consulting Group (BCG) avalia que a diversidade no trabalho cria resiliência e é uma maneira eficaz de criar métodos de trabalho duradouros e eficazes. Além disso, um ambiente diverso serve como base para uma adaptação. Ou seja: quanto maior a diversidade interna, mais oportunidades para que a companhia teste novas ideias e ações, a fim de selecionar as medidas mais sensatas para cada ambiente.

Na área em que Dandarah Silveira trabalha, por exemplo, outras duas mulheres negras passaram a ocupar cargos de figurinistas, assim como ela. Em meio a um mercado de trabalho ainda majoritariamente masculino, e que tem apenas 1,6% de mulheres negras ocupando cargos gerenciais, a realidade em que Dandarah está inserida demonstra um avanço e ruptura de padrão.

“Existem milhares de empresas que não têm isso: três mulheres como nós formadas, instruídas e que estão tendo espaço para atuar na área em que desejam”, diz. “ A gente precisa de condições iguais. Minha grande realização será quando eu tiver uma equipe e puder contratar mais negros”, afirma a figurinista.

diversidade no trabalho

Os efeitos e como aderir

A necessidade adotar políticas de diversidade nas empresas e no mercado de trabalho é mais urgente do que nunca. Principalmente diante de um cenário de grandes mudanças tecnológicas e de políticas globais. Se as companhias não acompanharem o ritmo, elas correm um sério risco de prejudicar o ambiente de negócios e reduzir a longevidade das empresas.

A não adoção de políticas inclusivas podem implicar, inclusive, na hora de reter talentos e atender a demanda da cadeia final: os consumidores. Por isso, ter uma equipe mais diversa deixou de ser uma questão apenas social para as companhias, e passou a ser algo que impacta diretamente no balanço financeiro delas.  

No levantamento da consultoria BCG Group “How diverse leadership teams boost innovation”, foi observado que empresas que possuem equipes gerenciais mais diversas alcançam receita 19% maior devido à inovação. Tal descoberta é muito relevante para empresas de tecnologia, companhias novas e indústrias em que a inovação é o ponto-chave para o crescimento. Revelou-se, então, que a diversidade não é apenas uma métrica, ela é, na verdade, um ingrediente essencial para um negócio bem-sucedido.

Segundo Reinaldo Bulgarelli, da Txai Consultoria e Educação, para iniciar a discussão e conseguir implementar políticas básicas de diversidade nas companhias, os gestores precisam, em primeiro lugar, perceber o valor da diversidade – afinal, inúmeras pesquisas endossam a causa; envolver o time de recursos humanos na conversa e entender o quanto o tema está sendo explorado na empresa e nas políticas de recrutamento. Por fim, olhar para a sociedade brasileira em geral e para os movimentos sociais a fim de buscar diálogo com eles.

“No dia a dia, o básico é trabalhar os preconceitos e o viés inconsciente”, indica o especialista. “Trazer sempre à tona discussões sobre [como evitar ] práticas de discriminação e capacitar as pessoas das empresas, principalmente os executivos e gestores”, conclui.

Diversidade no mundo e os impactos gerados

Embora os avanços no Brasil sejam visíveis, ainda engatinhamos quando comparados com outros locais do mundo.  O próprio levantamento da McKinsey “Delivering through Diversity” ressalta isso.

Segundo a análise, as companhias australianas estão à frente quando se trata da participação de mulheres em cargos executivos: 21% delas estão no comando de empresas. Enquanto isso, nos Estados Unidos o número chega a 19% e, no Reino Unido, 15%. No Brasil, o número de mulheres em cargos de CEO é de apenas 3%.

Do outro lado, estudos comprovam a eficácia e impacto das mulheres na economia e no mercado de trabalho. Uma maior participação das mulheres na economia, por exemplo, incrementaria o PIB mundial em US$ 28 trilhões até 2025, segundo um levantamento da Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), agência de desenvolvimento internacional da ONU que trata de questões populacionais.

Quando o tema é a participação da mulher no mercado de trabalho e em cargos diretivos pode injetar até US$ 12 trilhões no PIB global até 2025, segundo cálculos da McKinsey. Para o Brasil, o incremento seria na ordem de US$ 410 bilhões – o equivalente a riqueza gerada pela região Nordeste, por exemplo.

Já em relação ao panorama de diversidade étnica e cultural, o desafio é ainda maior. Na amostra elaborada pela McKinsey, a África do Sul possui os níveis mais elevados de representação diversa em cargos sêniores, com 16% dessas vagas ocupadas por negros. Em contrapartida, quando se avalia o contexto da demografia local, observa-se que a população negra no país é de quase 80%. A conclusão da análise é a de que a disparidade no mercado de trabalho do país é reflexo do complexo histórico social do país, que foi palco do apartheid de 1948 a 1994.

Locais como Singapura, Reino Unido e os Estados Unidos seguem o exemplo da África do Sul, e contam com apenas de 11% a 12% de executivos etnicamente diversos, de acordo com o estudo. No Brasil, apenas 5% dos cargos estratégicos são ocupados por negros e pardos.

“Tudo indica que estamos indo em passos lento quando o assunto é diversidade no trabalho”, diz Bulgarelli. “Mas, só do tema estar com as lideranças e ser pauta dentro das empresas, já é um bom caminho andado. Eu percebo que os programas voltados à diversidade estão mais consistentes. As empresas entenderam que fazem parte da mudança da sociedade, e de que elas também promovem esse impacto.”

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Postado por Paula Bezerra

Editora da Revista Digital Creditas, jornalista de coração e alma. Escreve sobre finanças, inovação, economia, cultura e o que mais der na telha.

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