Como o empreendedorismo social pode ajudar em casos de tragédia

Publicado em Atualizado em: 12/04/2019

Empresas de “negócios de impacto” usam expertise para contribuir com a sociedade. Saiba como isso pode contribuir em casos como o de Mariana e Brumadinho

empreendedorismo social

O Brasil está em luto. Na sexta-feira 25, uma barragem da mineradora Vale rompeu em Brumadinho, cidade mineira de cerca de 40 000 habitantes. A tragédia, que deixou ao menos 110 mortos e 238 pessoas desaparecidas, mobilizou inúmeros brasileiros e empresas por uma só causa: tentar amenizar os impactos causados. Em pouco tempo, a hashtag SOS Brumadinho se espalhou pelas redes sociais. Empresas e startups de serviços como 99, iFood, Rappi e Uber Eats lançaram campanhas para entregar água e comida à comunidade local. O aplicativo de pagamentos PicPay, em parceria com a Cruz Vermelha, criou um método para quem quisesse doar via app e cartão de crédito. Além disso, mais de 160 startups de tecnologia se colocaram à disposição da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), para ajudar nas buscas. Todo esse engajamento corrobora a tese de que o Brasil tem uma população solidária e proativa em situações de tragédia. Não à toa, o país foi o segundo maior mercado do chamado empreendedorismo social na América Latina.

Conhecido por ser um negócio de impacto, o foco do empreendedorismo social é a base da “pirâmide social” – composta pela população mais carente. Isso porque o empreendedor social tem como objetivo promover questões como a cidadania, educação, reduzir e/ou solucionar problemas ambientais, de desigualdade social e/ou inclusão. Em caso de startup, por exemplo, o empreendedor une recursos de inovação e bases tecnológicas para desenvolver os serviços em prol da causa específica.

“Em uma situação de tragédia, as pessoas podem entrar em uma condição de pobreza, pois perdem casas, empregos e familiares que proveem o sustento”, diz Alexandre Nabil Gobril, professor de educação empreendedora e incubadora de empresas da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “E empresas de empreendedorismo social podem ajudar nesse sentido, pois trabalham em prol de uma causa.”

O leque de oportunidades e crescimento desse segmento no Brasil é muito grande. O último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que 15,2 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da extrema pobreza no país – com rendimento mensal de 140,00 reais. Para compor a pesquisa, o instituto considerou métricas como mercado de trabalho, educação, moradia e distribuição de renda. A conclusão é a de que o Brasil é um país extremamente desigual e que a pobreza cresceu no último ano.

Para erradicar a pobreza no país, o IBGE estimou que seria preciso investir 10,2 bilhões de reais por mês. Já para pôr fim à extrema pobreza, o aporte mensal seria de 1,2 bilhão de reais. E é nesse cenário que o empreendedorismo social atua: tentar contribuir para estimular e desenvolver áreas precárias. Principalmente em períodos de forte ajuste fiscal por parte do governo federal – em 2018, por exemplo, os rombos nas contas públicas somaram 108 bilhões de reais, segundo o ministério da Fazenda.

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Empreendedorismo social: panorama

empreendedorismo social

Em alta no Brasil, os pequenos empreendedores somam 17 milhões de negócios, o que representa 99% do total de empresas no país, de acordo com dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Nesse cenário, o número de empresas voltadas ao empreendedorismo social foi crescente durante os últimos 10 anos. Ainda segundo o Sebrae, mais de 800 negócios existentes no país hoje são voltados a ações de impacto social – sendo grande parte deles startups.

“O empreendedorismo social é bem diferente do assistencialismo puro. Ele tenta contribuir com impactos diretos, como reinserir a pessoa no mercado de trabalho, ajudar em educação, ou fazer com que ela saia de uma situação de pobreza”, explica Alexandre Nabil Gobril, professor de educação empreendedora e incubadora de empresas da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Mais que promover avanços sociais na causa em que atua, o empreendedorismo social também gera um alto valor para a economia. A rede de empreendedores de países em desenvolvimento Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande Brasil), divulgou um estudo no ano passado sobre os resultados obtidos entre 2016 e 2017. Segundo a análise, negócios de cunho social movimentaram cerca de 60 bilhões de dólares em nível mundial. Além disso, a estimativa é que o montante tenha crescido aproximadamente 7% em 2018.

Um dos destinos mais procurados por fundos de investimento, o Brasil é o segundo país da América Latina que recebe aportes para empresas com negócios de impacto social. Entre os setores mais beneficiados são as áreas de tecnologia da informação, educação, saúde, conservação da biodiversidade, geração de renda/inclusão financeira e habitação. Segmentos com inúmeros casos de queixas por parte da população e que carecem de atenção.

Como esse nicho – e startups – podem ajudar em casos de tragédia

Voltado à negócios de impacto, o empreendedorismo social é muito relevante em situações de tragédias, como as ocorridas com os rompimentos das barragens no estado de Minas Gerais. A de Mariana é um exemplo disso. Um mês após o desastre que deixou 19 mortos, a startup Game Developers SC desenvolveu o Salve Mariana, um aplicativo gratuito para dar informações turísticas e da cidade de Mariana.

À época, o objetivo era recuperar a autoestima dos moradores e incentivar o turismo cultural na região, que é uma das principais fontes de renda do município. Enquanto estava no ar, o aplicativo teve mais de 4 000 downloads.  “As empresas de empreendedorismo social faz isso continuamente, não apenas em momento de tragédia. Eles sempre tentam criar uma solução para que a comunidade/grupo consiga ter autonomia no futuro”, diz Gobril.

Outras iniciativas em Mariana também foram incentivadas por órgãos como a Fundação Renova, entidade responsável para reparar os danos causados pelo rompimento da barragem. Em janeiro de 2018, a instituição lançou um edital, em parceria com o Sebrae e o Senai, para selecionar quatro projetos de empreendedores sociais, a fim de recuperar a bacia do Rio Doce, altamente atingido pelo rompimento da barragem. Os investimentos somaram 1,1 milhão de reais, sendo 400 000 reais para dois projetos e 150 000 para os outros dois (cada).

No caso de Brumadinho, por ainda estar em estágio de buscas das vítimas desaparecidas, os incentivos e medidas para ajudar o local vieram de colaborações para levar comida, água e levantar fundos. Porém, mais de 160 startups de tecnologia já ofereceram expertise para atuar nas buscas – e, quem sabe, isso não seja revertido para algum modelo de empreendedorismo social.

Ao redor do mundo

Um exemplo global de empreendedorismo social é a rede de cafeteria britânica Change Please – Mudança, por favor, em tradução livre. Criado pelo empreendedor Cemal Ezel em 2015 no Reino Unido, o negócio foca em dar oportunidade a moradores em situação de rua. Para isso, a empresa oferece alojamento, treinamento e um emprego como barista na cafeteria. O processo tem duração de seis meses – e contribui para que os participantes encontrem um novo emprego após o treinamento.

A rede, que além do Reino Unido tem pontos em Nova York e São Francisco, nos Estados Unidos, já tirou mais de 120 pessoas em situação de rua e recebeu aporte de 353 000 dólares do Chivas Venture (uma competição de empreendedorismo social) e 234 000 dólares do Virgin Group, do bilionário Richard Branson.

Com três anos de operação, a empresa já conta com 32 cafeterias. Além do trabalho com os baritas, a empresa também trabalha com copos recicláveis e incentiva a cadeia sustentável com a compra grãos de fazendas em locais de baixa renda. 

 

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Postado por Paula Bezerra

Editora da Revista Digital Creditas, jornalista de coração e alma. Escreve sobre finanças, inovação, economia, cultura e o que mais der na telha.

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