É da Conta Delas: entenda a importância das mulheres na economia

Publicado em Atualizado em: 12/04/2019

A igualdade de gênero poderia acrescentar US$ 28 trilhões no PIB global até 2025 e contribuiria no processo de erradicação da pobreza. Entenda por que a equidade é mais que um tema moderno, mas fundamental para a evolução das nações

mulheres na economia

Aos 30 anos de idade, a assistente jurídica Claudisséia Cunha, atualmente com 52 anos, se deparou com o maior desafio de sua vida: do dia para noite, ela se tornou a chefe financeira de sua família. À época, com uma filha de apenas dois anos para criar, ela viu a composição da renda familiar mudar drasticamente, impactando diretamente nos planos de sua carreira e na dinâmica da família como um todo. O furacão que atravessou sua casa ocorreu quando a empresa fundada por seu esposo, Humberto Lima, faliu. Os três perderam grande parte do que tinham, inclusive a casa onde moravam, por não conseguirem mais arcar com o aluguel. Com seu marido acometido pela depressão e a filha ainda bebê, ela assumiu a responsabilidade financeira da casa. “Eu também trabalhava, mas o meu salário era voltado para contribuir com pequenos gastos da casa. Afinal, ele era o provedor”, relembra Claudisséia. “Naquela época, meu pensamento era outro, eu queria sair do emprego para poder me dedicar integralmente na criação da minha filha Priscila. No fim, eu virei a chefe da casa.” A história de Claudisséia reforça o novo quadro e mudança no papel das mulheres na economia.

Prova disso é o crescimento de lares chefiados por mulheres nos últimos 15 anos no Brasil. Segundo o levantamento “Mulheres chefes de família no Brasil: avanços e desafios”, elaborado pela Escola Nacional de Seguros em 2018, o total de famílias aumentou 39% em 15 anos, passando de 51,5 milhões em 2001 para 71,3 milhões em 2015. Nesse período, as famílias chefiadas por homens cresceram 13%, passando de 37,4 milhões em 2001 para 42,4 milhões em 2015. Já o número de famílias chefiadas por mulheres dobrou em termos absolutos, aumentando 105% num cenário de 15 anos – passando de 14,1 milhões em 2001, para 29 milhões em 2015.

“O mais importante é notar que essa alteração na composição familiar e do papel das mulheres na economia brasileira ocorreu no país como um todo, indo desde a zona urbana, até a zona rural. E a tendência é a de que esse quadro só progrida”, afirma Maria Helena Monteiro, diretora de Ensino Técnico da Escola Nacional de Seguros.  

Assim como o ilustrado no levantamento da Escola Nacional de Seguros, Claudisséia Cunha se estabeleceu na carreira e continua sendo, até hoje, a provedora da família. A assistente jurídica conseguiu alavancar as finanças da família, comprou uma casa e carros. Financiou os estudos da filha e hoje leva uma vida estável, segura e sem apertos financeiros.

“Foram anos difíceis e de muita luta. Sem a ajuda da minha família, como minha mãe e minha irmã, eu não teria tido forças”, relembra Claudisséia. “A lição mais importante que eu aprendi em toda essa transformação é a de valorizar o papel da mulher na sociedade e na economia.”

Outro recorte relevante do estudo evidencia que, embora a maior parte das chefes da família sejam entre as que vivem sozinhas com seus filhos – 11,6 milhões de mulheres na época do estudo -, houve um crescimento expressivo do comando feminino em famílias heterossexuais (onde há um cônjuge). Entre os casais com filhos, o número de mulheres chefes passou de 1 milhão, em 2001, para 6,8 milhões, em 2015, alta de 551%. Já no caso dos casais sem filhos, o crescimento foi ainda maior, de 339 mil para 3,1 milhões, salto de 822%.

“A mudança na composição de renda familiar está associada a alguns fatores, que vão desde uma maior participação feminina no mercado de trabalho, maior desemprego entre os homens em anos de recessão, como 2014, e a perda de pudor das mulheres assumirem que são provedoras da casa”, explica Maria Helena Monteiro.

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É da conta delas: a importância e o papel da mulher na economia

O exemplo da assistente jurídica como chefe de família é a prova dos avanços das mulheres na economia. E os benefícios do protagonismo delas, seja no cenário econômico, mercado de trabalho e mundo financeiro não são à toa: uma maior participação das mulheres na economia incrementaria o PIB mundial em US$ 28 trilhões até 2025, segundo um levantamento da Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), agência de desenvolvimento internacional da ONU que trata de questões populacionais.

Já uma maior participação da mulher no mercado de trabalho e em cargos diretivos pode injetar até US$ 12 trilhões no PIB global até 2025, segundo cálculos da McKinsey. Para o Brasil, o incremento seria na ordem de US$ 410 bilhões – o equivalente a riqueza gerada pela região Nordeste, por exemplo.

mulheres na economia

O potencial identificado pelas análises em geral vêm da reformulação de alguns pontos. O primeiro deles é destacado pelo mix de setores em que as mulheres trabalham – e maior protagonismo delas; o segundo, pelas horas trabalhadas, levando em consideração uma maior participação masculina nos deveres domésticos; e, por fim, pela sua maior participação no mercado como um todo.

“Essa tendência vai ajudar a mostrar a mulher como protagonista na economia. Ou seja, que ela deve ser levada a sério no momento de decisão”, explica Nana Lima, especialista da consultoria Think Eva, núcleo de inteligência do feminino.

As consequências desse empoderamento econômico também aparecem na contribuição para a erradicação da pobreza. Uma análise feita pelo Banco Mundial no período de 10 anos – 2004 a 2014 – identificou que o aumento da participação feminina no mercado de trabalho reduziu em 15% a pobreza no Brasil. Na América Latina, a queda foi de quase 14% e, no mundo, 12%. “Dinheiro [poder econômico] é independência. Seja do marido abusivo, da carreira que ela não quer mais seguir e, até mesmo, para poder empreender”, diz Nana.

Mas, o cenário ainda é desigual

Embora inúmeros estudos conceituados tenham revelado a importância das mulheres na economia, o cenário nacional e global ainda continuam desiguais. No dia 08 de março de 2019, por exemplo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que, em 2018, o rendimento médio das mulheres em comparação ao dos homens ainda é 20% menor. Ou seja, elas ganham 79,5% do salário deles. Os números mostram uma melhora em relação a 2017, quando o rendimento médio das trabalhadoras equivalia a 78,3% ao do dos homens, mas ficou inferior ao observado em 2016 (80,8%).

Entre os principais motivos para que a equidade ainda seja um problema entre as maiores economias globais estão as dificuldades de implementar políticas – públicas ou privadas – que proporcionem e fomentem as mesmas oportunidades.

Tal questão é comprovada meio de um estudo elaborado pelo Fórum Econômico Mundial. A organização passou a pontuar o comportamento de gênero na economia de 149 países ao longo dos últimos anos. Um dos índices avaliados nessa análise é justamente a participação econômica e as oportunidades que as nações oferecerem às mulheres.  

No relatório de 2018, apenas 58% desta lacuna foi atingida pelos países, com progresso mínimo desde 2017. No Brasil, apesar de a nação figurar como a 9ª maior economia global, em termos de direitos e oportunidades econômicas às mulheres, ele aparece em 92º.

“As mulheres estão conquistando o espaço as duras penas”, diz Maria Helena Monteiro, diretora de Ensino Técnico da Escola Nacional de Seguros. “Elas ainda ganham menos, enfrentam dupla jornada. Mas, a tendência é que a nova geração mude esse panorama”, explica.

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É da Conta Delas: o papel do setor privado na mudança

A fim de endossar e apoiar o papel da mulher como protagonista econômica, empresas da iniciativa privada assumiram o compromisso para si. A fintech de empréstimo Creditas é um exemplo disso.

Para a celebração do dia internacional da mulher em 2019, a fintech de crédito elaborou um movimento intitulado por “É da Conta Delas”, com o objetivo de reforçar a importância delas no mercado financeiro e de tecnologia. Criado por uma equipe de especialistas a ação quer somar vozes e demonstrar ao mercado como um todo que, se não houver uma atuação maior e mais firme do setor privado, o quadro de desigualdade não diminuirá.

“É um movimento que cresce de dentro [da empresa] para fora [da companhia]”, explica Isadora Greiner, Community Manager da Creditas e uma das idealizadoras do movimento. “Acima de tudo, com o #ÉDaContaDelas, nós queremos apoiar as mulheres no mercado de trabalho, facilitar o acesso à educação financeira, divulgar a conquista de tantas profissionais maravilhosas e inspirar muitas outras que estão por vir.”

Mais que o movimento lançado no dia internacional da mulher, a fintech busca, desde a sua criação, engajar a participação da mulher no mercado de trabalho. Atualmente, a Creditas conta com 46% de mulheres como colaboradoras, sendo que 30% dos cargos de liderança são ocupados por elas. Na área de tecnologia, por exemplo, as mulheres representam 21% da equipe, quase o dobro do indicado em pesquisa da Michael Page, que encontrou uma participação de 12% de mulheres nos cargos de TI.

Órgãos internacionais

O reforço do protagonismo feminino na economia também pode ser exemplificado pela relevância que órgãos multilaterais globais têm dado às mulheres. Como é o caso do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento. Tais instituições referências em economia, desenvolvimento econômico e finanças contam com mulheres nos cargos de economista-chefe.

A mais nova nomeação ocorreu no início deste ano. Em janeiro, a P.h.D em economia Gita Gopinath foi nomeada para a liderança econômica do FMI, assumindo o lugar de Maurice Obstfeld.

Já a próxima nomeação está marcada para setembro deste ano, quando a economista polonesa Beata Javorcik terá o principal cargo econômico do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento. Na OCDE, o posto de economista-chefe à Laurence Boone foi dado em em meados de junho de 2018, e a professora de Yale, Pinelopi Koujianou Goldberg, assumiu o cargo do Banco Mundial em abril.

Para Nana Lima, do Think Eva, a mudança será constante e corroboram a relevância do tema para o desenvolvimento econômico. “Quanto mais mulheres tiverem em posições de poder e de influência, melhor”, explica a especialista. “Isso contribui para que a representatividade aumente, assim como ajuda a desconstruir estereótipos. Podemos ver mulheres inspiradoras com filhos, em cargos de liderança, empreendendo”, conclui.

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Artes e ilustrações por: Igor Nucitelli 

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Postado por Paula Bezerra

Editora da Revista Digital Creditas, jornalista de coração e alma. Escreve sobre finanças, inovação, economia, cultura e o que mais der na telha.

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