Aprenda a fazer um planejamento financeiro de verdade

Publicado em Atualizado em: 07/08/2019

Fundamental para atingir equilíbrio das contas e bem-estar, controle do orçamento ainda é um desafio para os brasileiros. Especialistas dão dicas valiosas para você começar o seu

planejamento-financeiro

Organizar as despesas, planejar o orçamento de acordo com a receita disponível e não comprar por impulso. Todo mundo sabe que essas atitudes precisam ser colocadas em prática. Mas, para grande parte dos brasileiros, transpor a teoria, fazer um planejamento financeiro e cuidar das contas no dia a dia é uma grande dificuldade.  

No início do ano, um estudo realizado pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) mostrou que 45% dos consumidores não fazem um controle do próprio orçamento. Entre as pessoas das classes C, D e E, a proporção sobe para 48%. 

Não por acaso, o percentual de famílias endividadas aumentou pelo 6° mês consecutivo e, em julho, chegou a 64%, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC). As que têm contas em atraso somam 23%.

Os números comprovam que a falta de planejamento financeiro está intimamente relacionada ao descontrole das dívidas. Mas, afinal, por que é tão difícil acompanhar de perto as finanças pessoais?

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Falta de planejamento financeiro é consequência de múltiplos problemas 

Explicar por que os brasileiros não organizam as finanças não é tão simples. Carlos Heitor Campani, PhD em Finanças e professor do Instituto COPPEAD de Administração da UFRJ, afirma que a situação pode ser justificada por diversos fatores. Um deles envolve aspectos culturais de origem histórica. 

Entre as décadas de 1980 e 1990, o país viveu um período de hiperinflação, que fazia com que os preços subissem muito em pouco tempo. Além disso, o congelamento das poupanças por 18 meses ao longo do mandato do ex-presidente Fernando Collor também impactou a maneira como os brasileiros guardam dinheiro. Até hoje, muitos sentem medo de confiar o dinheiro em investimentos e/ou poupanças.  

“Naquela época, as famílias recebiam os seus salários e corriam para fazer a compra do mês, porque os valores dos produtos eram ajustados todos os dias”, conta o especialista Carlos. “Isso influenciou o comportamento das próximas gerações, e ajuda a explicar a falta da cultura de poupar”, acrescenta. 

Falar sobre dinheiro e planejamento financeiro ainda é tabu

Falar sobre dinheiro ainda é um assunto desagradável para muita gente. Ao transformar o tema em tabu, o consumidor desvia o olhar das suas despesas, e esse afastamento não é saudável para as finanças. “Nas famílias, quando alguém decide fazer uma reunião para falar de planejamento financeiro, isso cria um clima ruim. Em alguns casos, a pessoa chega a ser vista como mesquinha”, comenta o professor. 

Além disso, Carlos chama a atenção para outro ponto crucial: a baixa qualidade da educação no Brasil, especialmente em matemática. Na última edição do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), que avalia o desempenho escolar de diversos países, 70 nações foram analisadas, e o resultado foi preocupante: estamos entre os últimos do ranking em matemática, ocupando a 65ª posição na disciplina. 

“Com a precariedade do conhecimento em cálculos, fica muito mais difícil entender o que são os juros e como eles funcionam, por exemplo”, explica o especialista. “Então, as famílias não compreendem a necessidade e os benefícios de se livrarem de linhas de crédito com taxas abusivas que comprometem o orçamento”, ele acrescenta. 

Benefícios da organização

Para quem não é acostumado a acompanhar os gastos de perto e não tem um planejamento financeiro, pode ser difícil enxergar a real necessidade de fazê-lo. Mas organizar as contas traz grandes vantagens. A primeira delas é não cair em armadilhas como o cheque especial, o rotativo do cartão de crédito e outros serviços com juros exorbitantes. 

O Brasil é o país com o segundo maior spread bancário do mundo (32%), segundo o Banco Mundial. O que isso significa? Que, por aqui, há uma enorme diferença entre os juros que os bancos pagam quando alguém investe seu dinheiro e as taxas que eles cobram ao oferecer empréstimos e outras linhas de crédito. 

“Por isso, ficar com o saldo negativo no banco é péssimo. Consome muito do orçamento. E, sem um planejamento financeiro, o consumidor pode transformar essa prática em rotina, e ficar sempre refém de juros altíssimos”, afirma o professor de Finanças

Além disso, estar com as contas em dia faz bem para o bolso e para a saúde. Em 2017, outra pesquisa re­a­li­za­da pe­lo SPC e pe­la CN­DL ouviu con­su­mi­do­res inadim­plen­tes em to­do o país.  O estudo mos­trou que o en­di­vi­da­men­to cau­sa pro­ble­mas co­mo an­si­e­da­de, an­gús­tia e bai­xa au­to­es­ti­ma – o que pode desencadear doenças como a depressão. 

Por fim, fazer um planejamento financeiro é um atalho para realizar aqueles sonhos que estão relacionados a dinheiro. “É lamentável como a falta de organização financeira priva muita gente de realizar seus desejos”, declara Carlos Campani. “Fazer uma viagem para o exterior, por exemplo, ou comprar um carro melhor podem parecer sonhos impossíveis para algumas pessoas; mas, em vários casos, poderiam se tornar realidade com a ajuda de um planejamento”, defende o especialista.

Planejamento financeiro precisa ser simples

Para começar, não existe planejamento financeiro sem registros. Provavelmente, você já ouviu que ter uma planilha de gastos é interessante para organizar as contas, e ela pode, de fato, ser uma grande aliada. 

Mas, para quem não tem afinidade com planilhas, não há motivo para deixar a organização financeira de lado. Fazer as anotações em uma agenda de papel ou usar aplicativos de finanças são ótimas alternativas. O Guiabolso, por exemplo, permite que o usuário veja quanto recebe e quanto gasta, além de planejar quanto quer guardar. “A melhor opção é a que a pessoa tem mais facilidade para utilizar”, explica Carlos Campani. 

Passo a passo: como fazer o seu planejamento financeiro 

Depois de entender a importância um planejamento bem estruturado para a manutenção de uma vida financeira saudável, é hora de partir para a prática e começar a se organizar. A seguir, explicaremos, passo a passo, como começar. 

1- Conheça a sua situação financeira 

Cada pessoa tem seus hábitos de consumo e a sua maneira de organizar o dinheiro. Algumas têm mais facilidade para poupar, enquanto outras não resistem àquelas comprinhas por impulso e vêem o dinheiro sumir antes do fim do mês. 

Para montar o seu planejamento financeiro, faça um exercício de reflexão e seja sincero consigo mesmo. Avalie os seus hábitos de consumo, entenda de que maneira você lida com o dinheiro e quais são as suas dificuldades no momento. 

“Quem está com dívidas em atraso, por exemplo, já deve mapear todas elas para entender o tamanho do problema”, explica Otávio Machado, especialista de crédito da Creditas. É importante conhecer o saldo devedor – considerando os juros – e o valor das parcelas atrasadas antes de partir para a renegociação. 

Leia também: Como renegociar dívidas e limpar o nome 

2- Defina os seus objetivos

Uma boa maneira de se manter organizado e focado em sua nova relação com o dinheiro é ter objetivos e prazos para alcançá-los bem definidos. Nesse momento, é importante ser realista e respeitar as suas possibilidades. 

Pense em seus planos e divida-os metas menores, de curto prazo. Se a sua ideia é juntar R$ 3 mil em um ano para fazer uma viagem, pode estipular como meta poupar R$ 250 por mês. “Quando você começa a enxergar a longo prazo, percebe como um esforço que será feito todos os meses terá um impacto maior no seu orçamento, e encontra uma motivação para poupar”, diz Otávio. 

3- Registre suas receitas e despesas 

É impossível fazer um bom planejamento financeiro sem encarar os números. Primeiro, saiba exatamente qual é a sua receita. Para funcionários em regime CLT, por exemplo, o correto é não considerar o salário que está registrado em carteira, mas o valor líquido – aquele que cai na conta. 

Outra atitude fundamental é acompanhar quanto e como o seu dinheiro é gasto todo mês. Assim, fica mais fácil saber onde é possível – e necessário – cortar despesas e economizar. Fique atento aos “gastos invisíveis”, aquelas despesas menores, mas diárias, que consomem uma parcela importante do orçamento sem que você perceba. 

Em maio, uma pesquisa realizada pelo Guiabolso indicou que os brasileiros gastam quase 10% da renda mensal com aplicativos de transporte, como Uber, 99 e Cabify. Além de corridas frequentes em aplicativos, há outros exemplos comuns de gastos que parecem inofensivos, mas não devem passar despercebidos: compras de lanchinhos na rua, multas e juros por atraso no pagamento de compras são alguns deles. 

4- Compare preços antes de comprar

Por conta da correria do dia a dia, muitos consumidores não comparam preços antes de fazer uma compra – principalmente ao adquirir itens de menor valor. Além de evitar que você pague mais caro por um produto, a pesquisa é uma estratégia para dificultar as compras por impulso, vilãs da organização financeira. 

5- Faça reservas 

Nem sempre é fácil abandonar um estilo de vida com desorganização financeira para iniciar o hábito de poupar. Esse é um grande passo, mas exige determinação. Nesse sentido, a reserva de emergência é um ponto fundamental para manter as contas em dia. 

“Todo mês a gente tem despesas que não esperava, aqueles imprevistos. Ter algum dinheiro separado para esse tipo de situação é muito importante para que, na hora da necessidade, o consumidor não precise recorrer ao cheque especial e empréstimos com juros altos”, orienta Carlos Campani. 

O valor ideal para a formação da reserva de emergência varia conforme a renda e situação financeira, mas o professor de Finanças recomenda que de 10% a 15% da renda sejam separados para compor a reserva de emergência.  

Atualização é palavra de ordem 

Mas, para que o planejamento funcione, é preciso ficar de olho nos registros: ao término do mês, é fundamental que todas as informações estejam atualizadas. “Fazer essas anotações toda hora pode ser chato. Então, a pessoa pode conferir os números uma vez por semana ou só no final do mês, desde que não se esqueça de incluir alguma informação”, explica Carlos. 

 

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Postado por Flávia Marques

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