Caso Bettina abre debate sobre a importância da educação financeira

Publicado em Atualizado em: 10/05/2019

Polêmica em torno da redatora da Empiricus abre debate virtual sobre a falta de planejamento financeiro no Brasil

Bettina

Em pouco mais de um minuto, um vídeo divulgado na última semana pela Empiricus Research, publicadora de educação financeira, se tornou um dos assuntos mais comentados na internet. Na propaganda, Bettina Rudolph, redatora de campanhas de venda dos relatórios da empresa, conta que tem 22 anos e 1,042 milhão de reais em patrimônio acumulado, conquistados em apenas três anos de investimentos em ações. Ela completa dizendo que começou a investir com apenas 1.520 mil reais, ‘simples assim’. A fama repentina deve alavancar uma série produzida pela Empiricus, que estreará nesta semana, sobre a trajetória de Bettina e do primeiro milhão.

O conteúdo gerou muita polêmica sobre a veracidade e sustentabilidade das declarações de Bettina, que chegou a estar no topo do trending topics do Twitter – grafada erroneamente como #betina – no Brasil. Mas afinal, é possível prosperar no mercado financeiro como a cliente da Empiricus afirma que fez? A Revista Digital Creditas procurou um especialista para analisar o caso e traçar um paralelo sobre a importância da educação financeira para quem quer começar a investir na bolsa de valores.

“É aquela história do estatístico. É possível, mas improvável. A probabilidade é muito baixa. Acaba sendo o equivalente a você dizer assim, ‘leia esse livro e fique rico’. Pode acontecer? É claro. Mas agora, é fácil de replicar? Certamente não”, opina Cesar Caselani, professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP).

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Caso Bettina e Empiricus: a importância da educação financeira no Brasil

O caso de Bettina Rudolph da Empiricus é considerado um ponto fora da curva pelo especialista da FGV/SP. Em entrevistas a outros veículos de comunicação, ela explicou que começou a trabalhar desde os 15 anos, dando aulas de dança, mas que também sempre foi privilegiada no incentivo e apoio para iniciar os investimentos na bolsa de valores. Além disso, ela não começou sem assessoria financeira.

Dados da B3 relativos a janeiro deste ano revelaram que apenas 858 000 pessoas físicas investem atualmente em ações na bolsa brasileira. Embora o número represente um crescimento de 38% em um ano, é quase que irrelevante quando comparado à população de mais de 209 milhões de pessoas.

Levando em consideração a ausência de incentivo à educação financeira do brasileiro, o docente da FGV/SP, Cesar Caselani, acredita que propagandas como a da Empiricus, protagonizada por Bettina, podem criar uma falsa esperança no leigo que pretende se tornar um investidor e criar um modelo insustentável.

“Do ponto de vista de educação financeira, esse tipo de discurso é ruim. É um discurso é de uma solução mágica que em três anos você vai ficar multimilionário. Cria na cabeça de muitas pessoas a ideia de que é uma espécie de magia, que basta você ter acesso a essa solução que sem esforço nenhum, você vai ficar rico. E a gente sabe que isso não é verdade”, afirma Caselani.

Além disso, o especialista informa que a didática para se tornar um investidor que deve ser propagada tem que se concentrar sobre “os aspectos de esforço que ele vai ter em descobrir um papel ou o risco que ele vai correr ao investir”, para que a pessoa tenha certeza de que está indo pelo caminho certo.

Diversificando a carteira

Bettina Rudolph informou em outras entrevistas que não usou apenas 1.520 reais para os investimentos. O dinheiro, na verdade, foi usado como aporte inicial para comprar um lote padrão de ações. Atualmente, ela tem uma carteira com 30 ações, mas investe também em outros tipos de produtos, como renda fixa e até em bitcoins.

E para escolher as aplicações corretas, se aconselha que o aspirante a investidor observe quatro pontos: qual é o perfil de risco da pessoa – conservador ou mais arrojado; escolher se é ela quem vai gerenciar a própria carteira ou se vai contratar alguém para assessorá-la; e se conscientizar que terá que destinar um percentual, de preferência fixo, mensal da renda para o investimento.

Se optar por ações, o cuidado deve ser redobrado nas escolhas. No caso de Bettina Rudolph, quase todas as escolhas na hora de comprar e vender as ações foram feitas nos momentos mais propícios, algo extremamente raro. “Envolve uma série de riscos, não basta só querer. Você teria que comprar os papéis na hora certa, os papéis certos e contar realmente com o timing perfeito”, argumenta o professor de finanças Cesar Calesani.

Finanças desde cedo

Uma pesquisa publicada nesta segunda-feira (18) pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) com o Sistema de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) mostrou que seis em cada dez brasileiros não se preparam para a aposentadoria. Entre os que não fazem qualquer tipo de plano financeiro para a aposentadoria, 36% alegaram que não sobra dinheiro no orçamento e para 17% não vale a pena guardar o pouco da renda que sobra no fim do mês.

Os dados expõem a deficiência de se planejar a longo prazo e, também, a falta de preparo de focar em ter um bom planejamento financeiro logo nos primeiros anos de vida. O caso mostrado na propaganda da Empiricus Research reflete o que seria um mundo ideal quanto a educação financeira básica no país, com base de estudo nos ensinos primários e incentivo familiar para investir na bolsa de valores.

Para Cesar Caselani, da FGV/SP, o Brasil só começará a criar bons investidores a partir do momento em que as finanças pessoais passarem a ser alvo dos investimentos em educação aos mais jovens.

A própria Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) recomenda a educação financeira como boa prática no ensino básico (fundamental). A medida é incentivada pelo órgão desde meados de 2005 e pode ser adequada em inúmeros formatos para atender diferentes faixas-etárias.

Países que já adotaram a prática, como os Estados Unidos e o Canadá, por exemplo, têm sinais claros da diferença. Nos EUA, 27% dos jovens adultos sabem identificar a diversificação de risco com apenas uma simples conta. Enquanto isso, no Canadá, 63% dos jovens adultos ressaltam a importância de se da alfabetização financeira ainda na infância.

A educação financeira impactaria diretamente no mercado financeiro como um todo, fazendo com que as pessoas aprendam a ter uma boa organização financeira pessoal, a poupar da maneira correta, se planejar para o futuro e, consequentemente, a investir de uma maneira mais assertiva.

“Algumas escolas têm inserido aspectos de controle financeiro. Porque antes de mergulhar em detalhes de um produto financeiro específico, a pessoa precisa ter um mindset, uma maneira de pensar de evitar perder dinheiro com coisas supérfluas, comparar preço. São coisas básicas, mas que muitas pessoas não fazem até hoje”, afirma Cesar Caselani.

Para entender melhor o caso, a Revista Digital Creditas entrou em contato com Bettina Rudolph. Segundo a redatora, o impacto do vídeo foi uma surpresa para todos na Empiricus. Além disso, ela contou que não havia nenhum recurso de  planejamento financeiro quando começou a investir. Confira, a seguir, trechos da entrevista:

– Como você reagiu e encarou a repercussão do vídeo divulgado na semana passada? Acredita que alcançou a repercussão que gostaria? Das pessoas falarem do tema e se interessarem pelo mercado financeiro?

Fomos trend topics do Twitter por dias consecutivos. A procura pelo termo “bolsa de valores” aumentou substancialmente. O número de seguidores da página da Empiricus cresceu mais do que nunca. E, sabe quantos pré-inscritos já acumulamos para a série que eu convido o internauta a acompanhar naquele teaser que viralizou? Mais de um milhão. Veja você: quando o tema investimentos ganhou tanto destaque? Foi uma surpresa até para nós. O resultado é muito positivo.

– Alguns especialistas em mercado financeiro comentaram a dificuldade de conseguir conquistar o seu feito. Em entrevista ao Money Times, você assumiu que teve sorte na época que entrou na bolsa, que ela estava mais favorável. Você acredita que no contexto atual seja possível uma pessoa transformar 1.500 reais em 1 milhão? Em quanto tempo e o planejamento seria agressivo?

Os 1.500 reais não foram meu único aporte na Bolsa. Investi sempre todos os recursos que recebi. Morava com meus pais, era solteira e bem jovem. Queria aplicar tudo em ação até mesmo sem ter o colchão de liquidez que hoje sei que é muito relevante. A maior parte dos brasileiros preferem investir em passivos do que ativos. Então, por exemplo, um jovem que recebe algum dinheiro do pai, como foi meu caso aos 19 anos, prefere comprar um carro, ou seja, um passivo. Eu optei aplicar 35 000 reais que ganhei do meu pai em ação.

– Como foi seu planejamento financeiro para começar a investir?

Na verdade fiz até meio errado esse início porque, sinceramente, eu não planejei. Apenas comecei a investir com base no que eu lia dos conteúdos da Empiricus.

– O Brasil tem um déficit muito grande de educação financeira. As pessoas não têm nem o hábito de poupar e planejar o futuro/aposentadoria, por exemplo. Nesse contexto fica ainda mais difícil falar de investimento. O que você acha que deve ser feito para mudar esse cenário? Escolas adotarem aulas de finanças desde o ensino básico?  

Acho que qualquer esforço neste tema é válido. O importante é as pessoas terem acesso a informação sobre investimentos sem conflito de interesses. Os gerentes de bancos e agentes autônomos, que são as pessoas procuradas pelos brasileiros que não sabem onde investir, são conflitados, recebem comissão para indicar determinado investimento. Desta forma é muito difícil ganhar dinheiro.

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Postado por Thiago Fadini

Repórter da Revista Digital Creditas. Conectado à economia, política, novos negócios e, nas horas vagas, metido a comentarista esportivo.

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