Revolucionando o empréstimo no Brasil
Economia

Quais são os rumos da economia brasileira, segundo Otaviano Canuto

Economia do país avança 0,4% no 2º trimestre. Para ex-vice-presidente do Banco Mundial, se realizadas, reformas propostas pelo governo podem colocar o Brasil de volta à rota do crescimento

Escrito por Paula Bezerra em 29.08.2019 | Atualizado em 10.09.2019

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A economia brasileira e as questões ambientais do país estão sob holofotes nacionais e internacionais. Na quinta-feira 29, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que o PIB do Brasil avançou 0,4% no segundo trimestre do ano - na ponta das expectativas do mercado, que avaliavam crescimento entre 0,2 a 0,5% para o trimestre. A notícia surpreendeu positivamente a equipe do instituto, principalmente pela reação da indústria, que registrou a maior alta entre os segmentos que compõem o PIB.

A surpresa positiva em relação à reação da economia brasileira, porém, tem sido abafada pelas polêmicas envolvendo as questões ambientais no país - que começam a impactar diretamente setores econômicos, como acordos e a balança comercial do Brasil. 

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Isso porque, nos últimos dias, o país se viu envolvido em uma série de queimadas na principal floresta do mundo, a Amazônia. O agravamento do problema e a falta de resolução em curto prazo tomou proporções internacionais: virou tema de discussão no G7, grupo das principais economias mundiais; gerou crise diplomática com a França, que se posicionou fortemente contra as declarações do governo brasileiro; e passou a impactar nas relações comerciais do país com marcas internacionais.

Crise na Amazônia e impactos na economia brasileira

No final de agosto, empresas do segmento têxtil, como Timberland, Vans e Kipling declararam que podem suspender a compra de couro brasileiro por conta das notícias das queimadas na Amazônia com o agronegócio do país. Apenas no mês de julho, as exportações de couro e pele somaram cerca de 350 milhões de reais para a balança comercial brasileira, segundo dados do ministério da Economia. 

Além disso, a crise fez com que países como Irlanda e a própria França se pronuciassem contrários o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Embora o embaixador brasileiro na França, Luis Fernando Serra, tenha declarado na imprensa francesa que não há chances do acordo ser barrado, principalmente por ter sido uma decisão de ampla maioria entre os 27 países que compõem o bloco europeu,  o governo francês ainda não ratificou o compromisso. 

Em meio às reformas econômicas e a crise internacional relacionada às queimadas na Amazônia, o Exponencial conversou com Otaviano Canuto, membro sênior do Policy Center for the New South e do Brookings Institute - e ex-Vice Presidente do Banco Mundial, para entender os rumos da economia brasileira. 

Confira, a seguir, os principais trechos da conversa:

Questão ambiental: como isso pode afetar nossa economia e reputação?

O caso pode impactar a economia no longo-prazo em vários aspectos. Pode contribuir para que grupos protecionistas agrícolas fora do país (principalmente na França) utilize a crise como argumento para detonar as exportações agrícolas brasileiras. Pode impactar em acordos comerciais, como o costurado pelo Mercosul e a União Europeia. 

O fato também se traduz em maior dificuldade de justificativa de investimentos no Brasil. Definitivamente não ajuda. Minha esposa é francesa e acabo de retornar da França. Você sente no noticiário e nas conversas com pessoas na região - eu estava no sul da França, uma região agrícola - e onde quer que eu estivesse, as pessoas me perguntavam. 

Além disso, pode ter impacto fortes no regime de chuvas e, portanto, impacto na produtividade agrícola no sudeste do país, por exemplo.

A situação é definitivamente um gol contra o próprio Brasil. Se você me perguntar se essa crise vai anular os efeitos positivos que as reformas vão trazer, a resposta é: não, não vão anular. Mas, definitivamente, também não está ajudando a economia brasileira.

Análise para o PIB para 2019

Supondo-se que a agenda de reformas seja implementada, eu quero crer que o segundo semestre será um pouco melhor que o primeiro. Não a ponto de permitir um crescimento do ano como um todo acima de 1%, acho que a referência de 0,8% continua me parecendo adequada e 2% em 2020. 

Para o próximo ano, podemos chegar a 2% se a agenda de reformas continuar sendo implementada e os fatores que jogam contra não impactem. A situação na Argentina (econômica) não é positiva para nós.  O peso da Argentina para a nossa atividade comercial é tão relevante que a ameaça da recessão no país não é uma notícia positiva para nós.

* No dia 28 de agosto, a Argentina declarou moratória (quando é adiado o prazo de pagamentos) de parte de sua dívida. O objetivo é que o país renegocie os débitos de médio e longo prazo, como a parcela de empréstimos que possui com o Fundo Monetário Internacional (FMI) - o governo de Mauricio Macri assumiu uma dívida de 57 bilhões de dólares com o fundo em meados de junho de 2018. 

Medidas econômicas de curto-prazo e longo-prazo, como o FGTS, PIS, Selic e reformas

O conjunto de reformas que está sendo proposto faz todo sentido: tanto da previdência, quanto a tributária e a da política comercial. Assim como os demais itens do ambiente de negócios que estão sendo observados.

Faz sentido, também, avançar na agenda de infraestrutura que torne possível a presença mais forte do setor privado nos investimentos, na gestão de projetos e assim por diante. 

Já as medidas de curto-prazo, como a liberação do FGTS e do PIS traz um impacto positivo sobre a demanda já de imediato. Mas isso não quer dizer que o efeito será o suficiente para tirar o país do estado em que está. É um efeito limitado.

Ainda há ociosidade herdade na capacidade instalada. As famílias, por sua vez, estão ressabiadas depois do ciclo de endividamento para consumo em que elas protagonizaram no passado recente. E no quadro de alto desemprego - e com perspectiva de desemprego ainda por perdurar - as famílias estão pensando duas vezes antes de consumir para não se endividar.

A grande chave para o país sair do estado de prostração da economia em que tem estado, será via investimento privado. Um investimento que aposte no futuro. Ou seja, que assuma o risco de receber o retorno intertemporal, ao longo do futuro, e não depender do curto prazo.

Aliás, a marca registrada da desaceleração dos últimos anos tem sido uma queda no patamar de investimento para proporção do PIB para níveis mais baixos que o que estávamos acostumados (Investimento estrangeiro no Brasil caiu 12% em 2018. O país passou da 4ª  posição para a 9ª em termos de destino de investimento). 

Análise do anúncio da privatização de estatais e do programa de parceria público-privada 

Esse é outro item da agenda que também faz sentido: você não precisa ser um ultraliberal de Chicago (Universidade de Chicago) para aceitar o fato de que, na história recente, o setor estatal acabou sendo estendido para áreas e para setores onde, definitivamente, os ganhos por ter uma atividade pública cuidando não justificam.

A privatização de pedaços das empresas públicas faz todo sentido. Assim como também faz também olhar para o BNDES como um banco de desenvolvimento que deve trabalhar para tornar possível a ampliação do financiamento privado em vez de tomar o lugar do financiamento privado, como chegou a acontecer. 

A contribuição disso em termos de ajuste fiscal provavelmente não será tão significativo. Não é via privatizações que você vai conseguir abater a dívida pública. Porém, é uma contribuição e que implicará em termos de produtividade e em termos de consolidar as parcerias público-privado. 

A parceria público-privada na Petrobras, por exemplo, tem sido um bônus. Nós precisamos de agentes privados apostando no futuro, fazendo investimentos e se isso pode se dar via parceria entre o setor público e privado, é ótimo. É uma complementariedade.

Impactos de uma possível recessão global na economia brasileira

A tendência é de desaceleração da economia global em conjunto. Mesmo com a economia americana ainda se mantendo em uma margem de desempenho razoável, há vários sinais de que a economia americana alcançou um pico no ciclo deles - e não cresça a níveis elevados.

Além disso, fora dos Estados Unidos, há uma possível recessão na Alemanha, um choque do Brexit, a instabilidade e os riscos no que se diz respeito a dívida pública italiana. 

Há, também, o acirramento do grau de incerteza que faz os investidores pensarem duas vezes antes de realizarem aportes na Europa. A China, que já passava pela desaceleração doméstica, agora sente efeitos diretos do efeito da guerra comercial.

Então, o resto do mundo está baixando o ritmo. Nos últimos anos se convencionou no Fundo Monetário Internacional (FMI), de considerar recessão global quando o crescimento da economia global viesse abaixo de 3% e é bem provável que isso ocorra nesse ano e em 2020. Principalmente se a guerra comercial entre Estados Unidos e China se intensificar. 

Isso traz efeitos para a economia brasileira, principalmente pela questão da China, por ser nossa principal parceira comercial. E, também, pela questão financeira: um mundo avesso à riscos passa a buscar destinos mais seguros para investimento, o que diminui o volume de recursos disponíveis para economias emergentes em geral, inclusive no Brasil.

Claro que se a agenda de reformas continuar, o impacto no Brasil é reduzido. Mas não é o cenário ideal. Embora a trilha das reformas estruturais seja a única via viável, os resultados de ganhos - para a economia brasileiro - serão menores em um cenário de aprofundamento de crise na Argentina de desaceleração global.

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Paula Bezerra

Escrito por Paula BezerraEditora da Revista Digital Creditas, jornalista de coração e alma. Escreve sobre finanças, inovação, economia, cultura e o que mais der na telha.

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