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Negros ainda são os que mais sofrem efeitos da desigualdade social

Pretos e pardos ganham duas vezes menos que os brancos. Quais as alternativas para reverter esse cenário?

Escrito por Elaine Ortiz em 19.11.2019 | Atualizado em 19.11.2019

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Os dados são alarmantes. De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), que avalia a renda dos brasileiros,  os brancos ainda ganham cerca de duas vezes mais que os negros: a média é de 1.144,76 reais mensais para brancos contra 580,79 reais para os negros. 

O estudo, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com a Fundação João Pinheiro e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), indica que a desigualdade social ainda hoje afeta profundamente a população preta ou parda, ou seja, 55,8% dos brasileiros. 

Para Frei David, fundador e diretor executivo da Educafro, a explicação para tamanha disparidade é histórica. “Um instrumento chamado escravidão foi muito cruel e discriminatório, explorou, tirou a riqueza do trabalho do negro para enriquecer o branco. Fomos despossuídos para tornar os brancos possuidores de tudo”, diz. “Nós estamos em um processo de despertar a sociedade para o direito do negro em ter também acesso aos bens econômicos. É inaceitável que os empregos de menor qualidade fiquem com os negros e que os de maiores salários fiquem com os brancos. Quem ganha com isso é o Brasil, brasileiro honesto não quer ser racista”, diz Frei David.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2018, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a proporção de pessoas pretas ou pardas com rendimento inferior às linhas de pobreza propostas pelo Banco Mundial foi maior que o dobro da proporção verificada entre as brancas. Em 2018, considerando a linha de 5,50 dólares diários, a taxa de pobreza das pessoas brancas era de 15,4%, e 32,9% entre as pretas ou pardas. 

Ainda segundo a mesma pesquisa, as desigualdades por cor ou raça revelam-se também nas condições de moradia, seja na distribuição espacial dos domicílios, no acesso a serviços ou ainda nas características individuais das habitações. 

Em relação à distribuição espacial, o Censo Demográfico 2010 verificou que, nos dois maiores municípios brasileiros, São Paulo e Rio de Janeiro, a chance de uma pessoa preta ou parda residir em favelas e comunidades era mais do que o dobro da verificada entre as pessoas brancas. 

No Município de São Paulo, 18,7% das pessoas pretas ou pardas residiam nesses tipos de habitação, enquanto entre as pessoas brancas esse percentual era 7,3%. No Rio de Janeiro, 30,5% das pessoas pretas ou pardas residiam em comunidades, enquanto o percentual registrado entre as pessoas brancas foi 14,3%.

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Concentração de renda e desigualdade social: retrato da atualidade

Em um país onde 43% de toda a renda está concentrada nas mãos de apenas 10% da população, reverter este cenário é tão necessário quanto urgente. Por mais que avanços já tenham ocorrido, como por exemplo o fato de, pela primeira vez, existir mais pretos e pardos no ensino superior público no Brasil do que brancos (são  50,3% contra 49,7%, segundo o IBGE), há ainda muito o que evoluir para melhorar a vida dessa parcela da população. 

“Não queremos ser só a maioria na universidade, mas sim a maioria no curso de medicina, de direito, de odontologia. Afinal, somos no Brasil 55% da população, precisamos e queremos ser a maioria também nessas profissões”, diz Frei David, da Educafro. 

Além de terem menores salários e piores moradias, o negro é quem mais sofre com a violência. Segundo o IBGE, a taxa de homicídio entre jovens negros de 15 a 29 anos é de 98,5 por 100 mil --  entre os brancos, na mesma faixa etária, esse número cai para 34. Atrás de cada número existe uma pessoa, uma família e uma história de vida interrompida pela violência banalizada. 

Impacto social e economia de propósito

Para encontrar melhores condições de vida enquanto as políticas públicas não revertem de vez a dívida histórica que o país tem com os negros, algumas importantes iniciativas nasceram nos últimos anos dentro da própria comunidade. 

Uma delas é o Black Money, expressão que nasceu nos Estados Unidos dentro da comunidade negra para incentivar o consumo de produtos e serviços produzidos por afrodescendentes e levar ao público consciência social, econômica e financeira.

Dois pilares suportam o movimento: “se não me vejo, não compro” e “escolho adquirir de empreendedores negros para circular o dinheiro entre os afrodescendentes”.  Atualmente, 29% dos negros têm o seu próprio negócio, totalizando 14 milhões de empreendedores negros no país. Eles circulam uma renda de R$ 1,7 trilhão por ano, segundo dados da pesquisa “A Voz e a Vez – Diversidade no Mercado de Consumo e Empreendedorismo”, realizado pelo Instituto Locomotiva. 

Michelle Fernandes, empresária e fundadora da marca de acessórios Boutique de Krioula é uma das pessoas que viu no empreendedorismo um meio de sobrevivência. Com apenas 150 reais e mais o seguro-desemprego, ela criou a loja virtual que vende turbantes, brincos, bolsas e acessórios desde 2012. “Percebi que tinha uma oportunidade de negócio quando notei que minhas amigas sempre me perguntavam onde eu comprava os turbantes que usava na minha cabeça”, conta. “Estava desempregada e num cenário em que as mulheres negras não eram reconhecidas por elas mesmas”. Hoje, a Boutique de Krioula vende para o Brasil e até para o exterior. 

Assim como Michele, muitos negros começam a empreender por necessidade. Segundo a pesquisa Nacional Negro Empreendedor, realizada pelo Baobá – Fundo de Igualdade Racial em parceria com o Instituto Feira Preta, enquanto 25% dos brasileiros pensa em abrir um negócio próprio, entre os negros esse percentual chega a 36%. Enquanto o empreendedor branco declara receber em média  3.098 reais pelo seu trabalho, o empreendedor negro declara receber, em média, 1.388 reais (43% da remuneração do empreendedor branco).

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Black Money

Nina Silva, executiva de Tecnologia da Informação, uma das 100 pessoas afrodescendentes com menos de 40 anos mais influentes do mundo e sócia fundadora do Movimento Black Money, diz que o movimento é uma resposta ao racismo institucional que provoca desigualdades. “Não preciso pedir inclusão, bater na porta de alguém. Entendi que preciso construir meus próprios castelos”, costuma dizer.  

Além de levantar a bandeira do movimento, ela fundou em janeiro deste ano o D’Black Bank, banco digital voltado para população afrodescendente no Brasil com o objetivo de bancarizar e fomentar a emancipação da população negra do país. “O D'BlackBank é uma Fintech criada para conectar consumidores a empreendedores negros. Além disso, somos um negócio social que visa a justiça econômica, atuando no fomento do empreendedorismo e da inovação para população afrobrasileira. Somos o mercado que precisamos”, diz o site da startup.

A iniciativa não é única. A Conta Black é outro serviço bancário oferecido aos negros, que surgiu após o publicitário Sérgio All ter o crédito negado no banco em que era cliente. Há ainda cartões de crédito lançados pela Central Única das Favelas (Cufa) e pelo Olodum. Nos Estados Unidos, já existem 70 instituições bancárias para negros, sendo o OneUnited o primeiro banco online negro e o maior que existe no mundo. 

A preocupação em deter os meios de circulação de dinheiro e facilitar o crédito para os negros não é infundada. Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), 57% das pessoas de cor preta e parda declara sofrer preconceito quando tenta abrir seu próprio negócio. Mais: o acesso a dinheiro também é mais complicado, as linhas de crédito são negadas três vezes mais para negros do que para brancos.

“Entendemos que o movimento do Black Money surgiu para ajudar no debate da exclusão do negro e a criar um processo de ajuda mútua para que o povo negro possa empreender e transformar sua realidade”, diz Frei David. “O empreendedorismo negro é uma ferramenta que o negro está se apropriando para conseguir uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna”.

Feira Preta

A Feira Preta é considerada o maior evento de empreendedorismo negro da América Latina. Idealizada por Adriana Barbosa, a iniciativa existe desde 2002 e atua em prol da valorização da mão de obra artística negra e do empoderamento da cultura afro. 

O evento contribui muito para o black business. Em 2018, o evento recebeu mais de 50 mil pessoas e apresentou mais de 40 atrações nacionais e internacionais ao longo de 10 dias, 120 expositores, atividades distribuídas 10 territórios culturais diferentes e circulação monetária superior a 700 000 reais durante o evento.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

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Elaine Ortiz

Escrito por Elaine Ortiz

Repórter do Portal Exponencial, com dez anos de experiência em redações de jornais e revistas. Acredita que informação de qualidade é capaz de fazer a diferença na vida das pessoas e que conhecimento financeiro tem tudo a ver com liberdade.
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