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Economia

Os desafios das mulheres na liderança e no mercado de trabalho

Terceira reportagem da série É da Conta Delas traça as principais barreiras que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho e o que já foi superado

Escrito por Paula Bezerra em 27.03.2019 | Atualizado em 30.04.2019

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A montadora americana General Motors alcançou mais um marco histórico em 2018. Dessa vez, não está relacionado ao montante de carros fabricados, ou a algum novo design e/ou modelo de carro. Pela primeira vez, uma companhia automobilística passou a contar com mulheres nos cargos de diretora financeira e presidência. O anúncio ocorreu em meados de junho de 2018, quando a General Motors oficializou o nome de Dhivya Suryadevara no cargo mais alto de finanças da empresa. Já a presidência, está com Mary Barra desde 2014. Na contramão de toda a indústria automobilística, a GM mostrou a importância de estimular mulheres na liderança.

O feito da montadora ainda é exceção no ambiente corporativo. Prova disso é o levantamento realizado anualmente pela revista norte-americana Fortune com as 500 maiores empresas dos Estados Unidos. Em 2018, das 500 companhias listadas pela análise, apenas 24 tinham mulheres em cargos de presidência. O número caiu 25% quando comparado com 2017, quando a lista detinha 32 mulheres CEOs. Em contrapartida, as mulheres são responsáveis por 58% da força de trabalho no país. 

No Brasil, a situação não é diferente: apenas 11% das empresas com capital aberto inscritas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) têm mulheres em cargos do conselho de administração. Já as empresas com ações negociadas na Bolsa de Valores de SP (B3), seis em cada dez companhias não contam com mulheres nessas posições. A análise foi feita pela ONG Poder em parceria com o El País.

O baixo índice de mulheres na liderança, porém, é prejudicial para a economia e para o desempenho das empresas. No Brasil, por exemplo, as mulheres são responsáveis por definir 80% da decisão das compras. “Nós somos clientes, então é importante que tenham mulheres definindo os produtos”, diz Margareth Goldenberg, gestora executiva do Movimento Mulher 360. “Empresas mais inovadoras e disruptivas têm melhores resultados de negócios”, afirma.

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O impacto das mulheres no mercado de trabalho

A afirmação da especialista em diversidade e equidade de gênero tem um porquê. Na última década, inúmeras pesquisas passaram a reforçar como a igualdade de gênero reflete positivamente nas receitas de uma companhia. A consultoria americana McKinsey aponta em relatórios que empresas com pelo menos uma mulher na primeira linha de comando (presidência ou vice-presidência) podem aumentar a margem de lucro em até 47% e gerar 44% a mais de riqueza para o acionista. Entre os motivos para que isso aconteça estão o aumento da produtividade em razão dos diferentes estilos de gestão e da complementaridade de ideias.

Além disso, um estudo do instituto americano Peterson Institute para Economia Internacional, em parceria com a consultoria EY, apontou que companhias com pelo menos 30% dos cargos de liderança ocupados por mulheres podem elevar o lucro em até 15%, quando comparadas àquelas sem mulheres em posições consideradas de alto escalão. As 22 000 empresas analisadas, de 91 países, foram separadas entre as que obtiveram lucro das que tiveram prejuízo. Entre as 13 000 com resultados positivos, o lucro médio de 6,4% poderia saltar para 15% se houvessem mais mulheres no comando. Para as que ficaram com resultado negativo, o impacto feminino alcançaria seis pontos percentuais.

Para Margareth, do Movimento Mulher 360, a diversidade e questão de igualdade de gênero são temas que não podem mais serem ignorados pelas companhias. Diante de todas as pesquisa, empresas que não compactuam com iniciativas voltadas a essas questões correm o risco de perder presença de mercado.  “Equidade de gênero é correto e certo - é correto por direitos humanos e certo porque impacta diretamente dos negócios. Então a pauta de equidade deixou de ser um tema apenas do RH e foi para a mesa do CEO”, afirma a executiva.

Disparidades

Mesmo diante desses resultados, as mulheres ainda são minoria em cargos de liderança. De acordo com a análise Mulheres no Mercado de Trabalho 2018, da McKinsey, desde 2015, o primeiro ano deste estudo, as empresas americanas quase não fizeram progressos na melhoria da representação das mulheres. Segundo o levantamento, elas são sub-representadas em todos os níveis. A situação é ainda pior entre as mulheres negras, que ficam atrás de todos: homens brancos, homens negros e das mulheres brancas.

No Brasil, a situação segue em passos lentos. Em março, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que, em 2018, o rendimento médio das mulheres em comparação ao dos homens ainda é 20% menor. Ou seja, elas ganham 79,5% do salário deles. Os números mostram uma melhora em relação a 2017, quando o rendimento médio das trabalhadoras equivalia a 78,3% ao do dos homens, mas ficou inferior ao observado em 2016 (80,8%). Já o rendimento das mulheres negras chegam a ser, em média, 40,9% a menos que o dos homens.

Mulheres na liderança  

Nadando contra a corrente, algumas mulheres passaram a influenciar positivamente o mercado como um todo. Assim como na indústria automotiva, o segmento de startups ainda conta com baixa representação feminina como um todo - principalmente por tecnologia não ter uma adesão muito grande entre mulheres.

Atenta a esse cenário, a fintech de empréstimo com garantia Creditas tem como lema, desde sua criação, em 2012, a diversidade e a equidade de gênero. Prova disso é que a empresa conta com 46% de mulheres no seu corpo de funcionários, sendo que 30% dos cargos de liderança são ocupados por elas. Na área de tecnologia, por exemplo, as mulheres representam 21% da equipe, quase o dobro do indicado em pesquisa da Michael Page, que encontrou uma participação de 12% de mulheres nos cargos de TI.

Para Ann Williams, COO (executiva chefe de operações) da Creditas, a diversidade tem poder de transformar, pois incentiva, engaja e traz diferentes visões sobre o mesmo assunto. “Eu acredito muito no poder da diversidade de gênero, de raça e orientação sexual", diz a líder.  "E, além disso - e tão importante quanto: a diversidade de história e experiências. Sempre recrutamos dessa forma”, enfatiza.

A percepção de Ann sobre o tema pautada em sua vasta experiência no mercado. Desde 2000, a líder - nascida nos EUA e formada pela Universidade de Stanford - trabalha com o segmento de startups, a fim de escalar as empresas. Antes de assumir o posto de COO na Creditas, ela atuou como empreendedora e mentora de startups. Ann também foi co-fundadora e CEO da Okto, onde trabalhou por dez anos (desde o início até a venda da empresa).

Não à toa, em 2017, Ann Willians entrou no ranking das 30 mulheres que investem em tecnologia na América Latina. “Quando eu trabalhei com o mercado de telecomunicações, eu notava que só tinha homens. Sempre senti a importância da diversidade”, comenta a líder. “Por isso, busco muito trabalhar com uma equipe diversa: hoje, no meu time, tenho metade homem e metade mulher”, afirma.

Mulheres em startups

Assim como a Creditas, a Love Mondays, site brasileiro de avaliação de empresas (pelos próprios funcionários),  também está atenta a essa questão.

Após passar um período de sua carreira como executiva em Londres, Luciana Caletti, CEO e co-fundadora da Love Mondays, retornou ao Brasil e, juntamente com dois sócios, fundou a companhia.

À frente de umas principais startups atuais - que auxilia uma média de quatro milhões de pessoas -, ela enfatiza que, embora o Brasil tenha avançado em equidade de gênero, ainda há pouca participação de mulheres no ambiente de startups e tecnologia.

"O ambiente de startups e tecnologia ainda têm poucas mulheres. Infelizmente, entre os fundadores, o número de mulheres é relativamente baixo, é um ambiente muito masculino", comenta a executiva.

Para mudar esse cenário, Luciana cita a importância de redes de apoio a empreendedoras, com mentoras e profissionais que ajudam e incentivam as mulheres nesse segmento. A partir desse apoio, a rede se fomentará de uma maneira mais orgânica e rápida. 

“Eu acredito que o cenário está ficando mais positivo. Vemos iniciativas focadas em mulheres, grupos de mulheres investidoras, grupos de mulheres programadoras, escolas dedicadas às mulheres”, comenta a CEO.

Ilustração: Igor Nucitelli
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Paula Bezerra

Escrito por Paula BezerraEditora da Revista Digital Creditas, jornalista de coração e alma. Escreve sobre finanças, inovação, economia, cultura e o que mais der na telha.

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