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    Como uma nova crise econômica mundial afetaria o Brasil?

    Nos últimos dias, as notícias sobre o desempenho da economia mundial têm gerado tensão. Isso porque potências como os Estados Unidos, China e Alemanha apresentaram indicadores econômicos nada otimistas e, após 11 anos, volt ...
| Atualizado em: 10/09/2019

Com desempenho de potências mundiais e importantes parceiros comerciais em baixa, cresce a preocupação com os possíveis impactos na economia do Brasil. Entenda como os acontecimentos podem afetar o nosso país

Nos últimos dias, as notícias sobre o desempenho da economia mundial têm gerado tensão. Isso porque potências como os Estados Unidos, China e Alemanha apresentaram indicadores econômicos nada otimistas e, após 11 anos, voltou-se a se falar em recessão. Afinal, estamos vivendo o início de uma nova crise econômica mundial

Uma coisa é certa: o Brasil também tem muito com o que se preocupar, já que por aqui os tempos são de baixas expectativas de crescimento econômico e altos índices desemprego. Além disso, em meio a um cenário desfavorável em tantos países, agir de maneira estratégica é cada vez mais importante para salvar a economia. 

Isso envolve conciliar ações para aquecer o mercado interno com a adoção de políticas externas inteligentes. 

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O que aconteceria com o Brasil em uma nova crise econômica mundial?  

Além de números pouco animadores das economias da China e da Alemanha, nos Estados Unidos, a inversão da curva de juros também deixou os mercados em alerta, despertando o temor de uma nova crise econômica mundial.

Para entender como os acontecimentos dos últimos dias podem impactar a nossa economia nos próximos anos, o Exponencial entrevistou dois especialistas: Joelson Sampaio, coordenador do curso de Economia da FGV EESP, e Vinícius Vieira, professor de Relações Internacionais da FGV.  

Desaceleração da economia da China 

Neste mês, a China divulgou informações que indicam a desaceleração da economia do país. Entre os dados que mais chamam a atenção estão os relacionados à produção industrial, atividade responsável por impulsionar os números chineses. 

Entre julho de 2018 e o mesmo mês em 2019, a atividade cresceu apenas 4,8%, enquanto as expectativas do mercado eram de 6,0%. O valor representa o pior movimento em 17 anos. 

– De que maneira a desaceleração da economia chinesa pode afetar a vida dos brasileiros?

Joelson Sampaio: Primeiro, é importante lembrar que a economia chinesa sofreu uma desaceleração, o que não quer dizer que ela vai deixar de crescer. Basicamente, ela vai crescer menos. Mesmo assim, isso afeta os países emergentes, como o Brasil, que é um grande parceiro comercial da China. Em resumo, crescer menos implica em importar menos do Brasil. 

Sobre os impactos no bolso do brasileiro, eles podem ser sentidos de forma ainda muito marginal. Nesse sentido, acredito que o mais importante ainda é solucionar nossos problemas internos. Esse é o nosso maior desafio. 

Vinícius Vieira: Com a desaceleração, a China passará a diminuir a demanda de produtos agrícolas, por exemplo. Hoje, existem, basicamente, dois produtos que nós exportamos para a China e que compõem as maiores fontes de equilíbrio da nossa balança comercial, que são soja e minério de ferro. E, se o nosso principal comprador demandar menos, nossa economia receberá menos dinheiro estrangeiro. 

Isso significa que nós podemos ter mais instabilidade aqui, porque o que gera renda para o país – ainda mais em um cenário em que o nosso mercado interno não consome muito – é exportar. Então, se nós não exportamos muito, temos menos recursos e mais dificuldade para sair dessa situação de relativa estagnação econômica. 

Inversão das taxas de juros nos Estados Unidos 

Nos Estados Unidos, a economia vem apresentando um movimento atípico na relação entre as taxas de juros de curto e longo prazo, e neste dia 14, a curva foi invertida: os juros de longo prazo ficaram menores que os de curto prazo. É a primeira vez que isso acontece desde 2007.

Esse movimento mostra que o mercado está pessimista e vê riscos semelhantes ou até maiores em fazer investimentos em curto prazo, em comparação aos de longo prazo. Portanto, a expectativa é de turbulência. 

– Por que essa inversão gera tanto medo e previsões de crise? 

Joelson Sampaio: O mercado entende a inversão da taxa de juros como um sinal ruim de uma possível crise econômica nos Estados Unidos. Porque, naturalmente, você espera que no longo prazo o juro seja mais alto, devido às incertezas e a uma série de variáveis. 

A inversão dá um sinal de crise econômica e, se ela acontecer, também afetará em grandes proporções a nossa economia. Porque nós temos uma relação comercial muito forte com os Estados Unidos. Não é tão intensa quanto a que temos com a China, por exemplo, mas também é relevante. Além disso, existem muitos investidores que são investidores americanos que investem no Brasil. Então, havendo uma crise lá, haveria impacto negativo nos investimentos também. 

Vinícius Vieira: Os Estados Unidos ainda representam o maior mercado do mundo. É a economia que emite a moeda de referência internacional, o dólar. Então, tudo o que ocorre nos Estados Unidos impacta os outros países, sobretudo os chamados emergentes, como o Brasil. 

Se há uma redução da taxa de juros, em tese, no longo prazo você tem mais disponibilidade de capital em um mercado internacional – porque, com menos juros lá, os investidores vão provocar, vão procurar resultados maiores. 

Cabe ao Brasil e ao governo brasileiro se envolver em estratégias para tentar atrair esse capital para cá. E, ao que me parece, o atual governo, embora ainda tenha que provar a que veio em termos de economia, pretende fazer isso com privatizações. 

Em resumo, se a principal economia do mundo se retrai, é um sinal de que os demais mercados também vão se retrair. Como consequência, os investidores se tornam mais cautelosos e aplicam menos recursos nos mercados emergentes como o Brasil. Sem falar que em um ambiente de maior cautela, os outros países vão consumir menos. E, consumindo menos, eles também importam menos de países como o nosso.  

Guerra comercial: como o Brasil deve se posicionar? 

Desde março de 2018, quando o presidente norte-americano Donald Trump anunciou uma lista de tarifas sobre importações provenientes da China, a relação entre os dois países passou a ser marcada por uma guerra comercial. 

O governo chinês, em resposta, também impôs novas tarifas em mais de 120 produtos norte-americanos, incluindo especialmente a soja, uma importante exportação dos Estados Unidos para a China. 

– De que maneira o atrito entre esses dois países pode afetar a economia brasileira? 

Joelson Sampaio: Nessa disputa, os Estados Unidos criaram barreiras para os produtos chineses, que responderam com a desvalorização da sua moeda, o yuan. Essa questão afeta os mercados como um todo, e não só o Brasil, porque trata-se de duas potências. China e Estados Unidos são países muito relevantes na economia global.  

Vinícius Vieira: Em meio à guerra comercial, o que o Brasil deveria identificar o que pode vender mais, tanto para a China quanto para os Estados Unidos, já que um não quer mais vender para o outro como antes.

Na relação do Brasil com os Estados Unidos, poderíamos nos beneficiar vendendo mais produtos industrializados de menor valor agregado, como têxteis, calçados, e itens sobre os quais a gente tinha grande vantagem nas vendas até a ascensão chinesa.

O governo Bolsonaro fala, por exemplo, em buscar um acordo de comércio com os Estados Unidos. Esse acordo pode ser positivo nesse cenário se conseguirmos garantir acesso ao mercado americano em produtos em que somos fortes, como os agrícolas e manufaturados. Aliás, falando em produtos agrícolas, essa é a nossa grande vantagem na relação com a China: ainda que ela desacelere, continua sendo um país muito grande e sempre vai precisar de alimentos e produtos agrícolas para sua população. 

Alemanha: queda do PIB deve nos preocupar? 

Ainda em agosto, a Alemanha divulgou a redução do PIB em 0,1% no segundo trimestre de 2019. A previsão para o próximo trimestre é de que o índice caia novamente, o que indicaria que a maior economia da Europa estaria em recessão. 

– Afinal, o Brasil deve ficar de olho no desempenho da economia da Alemanha? 

Joelson Sampaio: Sem dúvida. Além de a Alemanha também ser uma parceira comercial do Brasil, a sua economia serve de termômetro para a situação da economia europeia. 

Se a Alemanha apresenta indicadores econômicos negativos, é um sinal ruim, e pode induzir ou trazer uma expectativa de crise maior no continente europeu, com mais países envolvidos. A questão, então, vai ganhando maiores proporções. 

Vinícius Vieira: Essa situação também pode respingar no Brasil, já que a Alemanha é a principal economia da União Europeia. Por isso, qualquer coisa que ocorre por lá também tende a provocar estragos no restante do mundo em virtude da redução da demanda daquilo que o Brasil vende para a Alemanha – em geral, também são produtos agrícolas.

Além disso, uma crise na Alemanha provocaria efeitos parecidos com uma eventual desaceleração da economia americana ou mesmo da economia chinesa, levando o investidor internacional a ser mais cauteloso e mais relutante em trazer os seus recursos para o Brasil. E o Brasil, nesse cenário, teria poucas condições de aumentar as suas exportações. 

Relações com a Argentina 

Na América do Sul, a situação da economia também requer melhorias. Ainda em agosto, a bolsa argentina despencou e o presidente Mauricio Macri anunciou medidas para estimular a economia do país. Entre as soluções, Macri anunciou o aumento do salário mínimo e incentivos aos trabalhadores. 

Mas, no que diz respeito à Argentina, o Brasil não precisa se preocupar apenas com o desenvolvimento econômico. Mais do que nunca, repensar as ações de política externa se faz necessário para a manutenção de uma relação cordial com o país vizinho. 

Depois de trocar farpas com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, o candidato vencedor das eleições primárias à presidência da Argentina, Alberto Fernández, afirmou que errou ao criticar Bolsonaro e disse que “o Brasil é mais importante do que qualquer presidente”. 

– Como podemos avaliar a nossa relação atual com a Argentina?

Joelson Sampaio: Por meio do Mercosul, a gente tem uma relação comercial com a Argentina boa, e para nós é muito importante manter essa relação. Mas a questão política também deve ser levada em consideração. 

A possibilidade de mudança de partido do governo argentino, que pode ter um viés político diferente das características do atual governo do Brasil, podem mudar um pouco essa relação, desgastar um pouco o nosso relacionamento com a Argentina e, consequentemente, afetar as relações comerciais e a nossa economia

A declaração do Fernández, a meu ver, foi uma maneira de minimizar um pouco desse desgaste. E, por parte do governo brasileiro, deve haver cautela nesse sentido daqui para frente.

Vinícius Vieira: Essas declarações por parte da Argentina indicam que o governo procurará manter boas relações com o Brasil. Acredito que o Bolsonaro comete um erro ao tentar interferir na política de um país vizinho, de um parceiro comercial. Ele pode ter as suas preferências, mas expressá-las sem cautela pode realmente prejudicar a relação entre os países. 

E o nosso interesse é que a Argentina, seja sob um governo de esquerda ou de direita, tenha o mínimo de estabilidade político-econômica, principalmente de crescimento, porque com o Mercosul, nossos produtos industriais se tornaram muito competitivos na Argentina. Uma Argentina fraca significaria uma indústria fraca e uma piora da crise aqui no Brasil, principalmente em regiões como São Paulo e outras mais industrializadas que dependem do comércio com a Argentina, ainda mais em um contexto de mercado doméstico fraco. 

Brasil: medidas internas são fundamentais

Mas, para o Brasil alcançar desenvolvimento econômico, depender do desempenho de outras nações e da nossa relação com elas não é suficiente. Isso porque, na economia brasileira, as ações de comércio exterior, que envolvem exportação e importação, representam cerca de 25% do nosso PIB. Em países como a China, o índice chega a 40%. 

– Como você avalia o desempenho da nossa economia atualmente? O que poderia ser feito para melhorarmos o nosso cenário? 

Joelson Sampaio: Hoje, precisamos ficar atentos aos nossos problemas internos, que são grandes. E a aprovação das reformas é muito importante, e estamos avançando nesse sentido. 

Por outro lado, em um mundo globalizado, a gente não fica isento de sofrer consequências de choques negativos vindo de outros países, e a gente não tem muito controle disso. 

Então, cabe ao Brasil fazer a sua lição de casa, que é colocar as coisas no eixo para fazer a economia crescer. No médio prazo, isso pode ser feito por meio dessas reformas mais: a reforma da previdência, reforma tributária e reforma política. 

Com essas questões encaminhadas, consequentemente passaremos a atrair mais investimentos e transmitir seguranças jurídicas. Acredito que essas são as principais ações às quais o governo precisa se atentar para atrair investimentos. 

Vinícius Vieira: Essa convergência de fatores negativos na nossa economia associada a fatores negativos no mercado internacional pode levar o Brasil a uma tempestade perfeita e fazer com que a nossa economia fique estagnada por ainda mais tempo. 

Isso significa menos dinheiro no bolso de quem trabalha e mais desemprego no país. É um cenário um pouco apocalíptico? Talvez. Mas é o que ocorrerá caso a recessão global se confirme, caso não cuidemos das nossas questões internas e não façamos a lição de casa, que é dar maior competitividade à nossa economia via uma série de medidas como a Reforma da Previdência. 

Postado por Flávia Marques

Repórter do Portal Exponencial, jornalista e curiosa. Gosta de observar, absorver e, diariamente, dividir o que aprende escrevendo.
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